CINEMA NO OLHO DA RUA
Alice Melo e Ronaldo Pelli em 6/7/2011
Primeiro foi a TV, depois vieram
os shoppings, o DVD. Agora, a Internet. Com tantos rivais, as salas que ficam
na beira da calçada têm um fim anunciado.
Se não fosse pelos cartazes e
faixas em tom de protesto, um desavisado que passasse perto da esquina da Rua
da Consolação com a Avenida Paulista na noite de 17 de março último poderia
pensar que ali ocorria algum tipo de comemoração. Era exatamente o contrário. O
espaço que fora tantas vezes protagonista da cena cultural paulista nos anos
1980 virava palco de uma despedida: o sexagenário Cine Belas Artes exibia sua
última sessão de cinema. Depois de um ano sem patrocinador majoritário, a sala
não tinha mais como arcar com o aluguel, já que proprietário tentava reajustar
o preço. Nem a reivindicação dos frequentadores nem o apelo do dono da marca
conseguiram evitar o fechamento, anunciado ainda em janeiro.
Este caso não é um fato isolado.
A cada ano, mais cinemas instalados em imóveis na beira da calçada fecham as
portas, enquanto cresce o número de salas abertas em shopping centers. De
acordo com um levantamento divulgado pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) em
abril passado, havia em funcionamento no Brasil 2.206 salas de cinema em 2010,
sendo 83% (1.822) instaladas em shoppings e 17% (384) em ruas ou em locais
desconhecidos. A previsão da Ancine para este ano segue a tendência: das 97
salas que devem ser inauguradas em todo o país, apenas duas ficarão fora de
shoppings. A crise dos chamados “cinemas de rua” – grandes salas localizadas
fora dos centros comerciais – é antiga, e data de um período em que a produção
cinematográfica em geral sofria uma crise.
“A cada dia cinemas são fechados em todo o
mundo. A tradição de se assistir a um filme em uma sala escura, em uma tela
grande e compartilhando essa experiência com muitas pessoas está acabando. O
hábito de ir ao cinema diminuiu porque surgiram outros meios de assistir a
filmes: a TV, o DVD, a Internet”, opina o cineasta Marcelo Gomes, que dirigiu o
filme “Cinema, urubus e aspirinas”, de 2005.
A cada ano, mais cinemas de rua
fecham as portas, enquanto cresce o número de salas abertas em shopping centers
Esta onda de fechamentos começou
nos anos 1980 e continuou até 1995, quando o número de salas no Brasil nunca
foi tão pequeno desde o início da contabilização pelo governo, em 1971. No ano
da maior redução, a Ancine registrou apenas 1.033 salas em funcionamento. Em
1975, o auge da contagem, o número era mais do que o triplo, 3.276. A partir de
1996, a tradição cinematográfica encontrou uma brecha para se reeguer mesmo sob
a “ameaça” das locadoras e das TVs a cabo: começou a ser importado o modelo
norte-americano dos complexos multiplex – grande número de salas, filmes
campeões de bilheteria, conforto, ar-condicionado, combos de pipocas e
refrigerante. A quantidade de salas voltou a crescer, mas com novas
prioridades.
Se antes a ida ao cinema era um
programa em si, com direito a discussões que se espalhavam pelos arredores após
a exibição dos filmes, hoje o “cineminha” passou a ser, na maioria das vezes, o
complemento de um dia de compras num shopping. “A experiência cinematográfica
mudou; agora as pessoas vão sem se importar com o que irão ver”, explica
Fernando Toste, editor assistente do boletim Filme B, dedicado ao mercado de
cinema.
“A tradição de se assistir a um
filme em uma sala escura, em uma tela grande, está acabando”, diz o cineasta
Marcelo Gomes
O jornalista Alberto Shatovsky,
responsável pela programação do Grupo Estação, do Rio de Janeiro, se lembra bem
do tempo em que o cinema era outro. Na década de 1970, ele esteve à frente do
famoso Cinema 1, em Copacabana, que se tornou a segunda casa de cinéfilos no
período. “Foi um acontecimento. Tinha uma frequência muito alta, ideias novas.
Tínhamos um bar na parte de trás, com cafezinho servido no hall. Éramos
pioneiros”, conta, empolgado. No fim do século passado, o Cinema 1 fechou as
portas, entrando na onda em que embarcariam outros símbolos de uma geração
disposta a travar discussões sobre cinema e política em bares e cafés das
redondezas, como acontecia no Cine Paissandu, no bairro do Flamengo. Os tempos
eram outros.
Esses espaços também sofrem com a
especulação imobiliária. As salas tendem a ser menores e em maior quantidade,
para a exibição de mais filmes. As grandes construções se tornam um prejuízo
para os proprietários do imóvel, que preferem alugá-lo a empresas mais
rentáveis, como farmácias, lojas de departamento, estacionamentos – e templos
religiosos.
A consequência mais imediata
desse deslocamento é a diminuição do número de pessoas que transitam nas
cercanias das salas de rua. Um cinema é um equipamento artístico que projeta
para sua vizinhança o movimento de indivíduos interessados em um determinado
tipo de entretenimento. No caso do Belas Artes, em São Paulo, após seu
fechamento, os vendedores informais de livros que trabalhavam numa passagem
subterrânea nas proximidades reclamaram que a região ficou deserta. O prédio
foi pichado. Moradores de rua elegeram suas marquises como seus novos tetos. A
área minguou.
“Cinemas são lugares de encontro
nas calçadas, produzindo coletividade, produzindo arte. Eles trazem uma força
para a cidade porque chamam as pessoas para a rua. Povoam a localidade com
algum vetor de pensamento. Quando a crise acontece e as ruas perdem essas
salas, há uma degradação dos espaços urbanos”, opina Talitha Ferraz, doutoranda
em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora
do livro A segunda cinelândia carioca: cinemas, sociabilidade e memória na
Tijuca (Multifoco, 2009). Segundo ela, o espaço em frente aos cinemas da rua é
um verdadeiro acontecimento: ali as pessoas se juntam na fila da pipoca, do
ingresso; conversam, paqueram. Com a retirada destes chamados “equipamentos
urbanos”, a calçada passa a ser apenas um local de passagem. “Quando se esvazia
a cidade de lugares simbólicos, passa-se a moldá-la por outro tipo de
preocupação – provoca-se um afeto ligado ao consumo”. E se conforma: “Mas
também não dá para voltar ao passado, porque o mercado é outro.”
“Quando a crise acontece e as
ruas perdem esses cinemas de rua, há uma degradação dos espaços urbanos”, opina
a pesquisadora Talitha Ferraz.
O documentarista Eduardo
Coutinho, diretor de “Edifício Master” (2002), também se mostrou resignado com
a mudança. “O cinema de rua acabou há 20 anos e não volta mais. Acabou porque
as pessoas preferem ir aos shoppings, porque lá passam os filmes de que elas
gostam, tem segurança, tem as lojas, tem estacionamento”, diz ele.
O desaparecimento desse tipo de
sala, claro, não se restringe ao Sudeste. André Steyer, professor de Letras na
Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR), cresceu assistindo a filmes
clássicos em prédios tradicionais nas calçadas de Porto Alegre. Ele diz que,
mesmo com a derrocada deste tipo de cinema, a capital gaúcha consegue se manter
como um dos maiores polos culturais do Brasil: “A cidade nunca deixou de ter
uma das melhores programações cinematográficas. O maior problema ocorre nas
cidades de médio e pequeno porte, que têm poucas ou nenhuma sala de cinema”.
Os números da Ancine mostram que
os 38 municípios com mais de 500 mil habitantes concentram 60,74% das salas do
Brasil, ao passo que as quase cinco mil cidades com menos de 50 mil habitantes
(4.958, para ser exato) detêm só 4,04% do total. Este percentual corresponde a
89 salas de cinema, distribuídas por 83 municípios.
A cidade de Afogados da Ingazeira
tinha tudo para ser um desses casos, mas conseguiu contornar as dificuldades.
Situado no sertão do Pajeú, no interior de Pernambuco, com cerca de 35 mil
habitantes, o município consegue manter o Cineteatro São José. Inaugurado em
1998, é a única opção de lazer dos afogadenses. Além das sessões diárias com
filmes do circuito comercial, ele conta com uma programação diferenciada às
segundas-feiras: funciona no local um cineclube, onde são exibidos
gratuitamente clássicos brasileiros e obras expressivas do cenário
pernambucano, seguidos de debate. “A gente tenta levar o povo ao cinema, criar
o hábito de as pessoas assistirem a filmes e pensarem sobre eles, o que não é
comum no interior”, diz Marcos Antônio, um dos funcionários.
O governo federal até tenta mudar
esse quadro de concentração de salas nos grandes municípios. Desde 2010,
incentiva a construção de cinemas em zonas periféricas e cidades de pequeno e
médio porte. Mas em um ano do projeto, apenas duas iniciativas foram aprovadas
pelo “Cinema perto de você”, e ambas no Rio de Janeiro: o Cine 10, inaugurado
no bairro de Sulacap, na Zona Oeste, e o Cinema de Irajá, no bairro homônimo da
Zona Norte.
A popularização do cinema digital
permitirá uma programação diferenciada, prevê Fernando Toste, do Filme B.
Em Copacabana, outra iniciativa
mostra como os cinemas de rua continuam a ser queridos e objeto de esforços
para suas manutenção. Um pequeno e tradicional cinema dentro de uma galeria
renasceu unicamente pela aposta de seu proprietário. Sem ajuda do governo, sem
apoio externo. Após passar uma temporada em Paris, Raphael Aguinaga decidiu
profissionalizar seu hobby reabrindo, no final de abril deste ano, o Cine Joia,
que estava fechado desde a década passada. “Quando voltei, achei que essa
massificação de salas em shoppings tinha desumanizado a ida ao cinema”, conta
ele, que programa seu espaço também com filmes fora de cartaz, respeitando
apenas o critério da qualidade. “Também me incomodou o preço do ingresso no
Brasil”, diz ele, que pratica preços abaixo do mercado: R$ 10,00 a entrada
inteira.
Fernando Toste, do Filme B,
oferece outro ponto de vista. Segundo ele, a popularização do cinema digital
permitirá uma programação diferenciada: “Aquele templo está passando por
transformações. É complicado tentar achar que há vilão, ou que há um motivo por
ter acabado o cinema de rua. Há uma grande transformação no consumo de cinema e
muitas opiniões conflitantes”. Ele acrescenta que os fóruns na Internet e os
sites para download de filmes chegaram não para fazer falir a experiência
cinematográfica, mas para modificá-la e readaptá-la. Ali criam-se novos tipos
de cineclubes, onde o cinéfilo tem acesso ao filme via web e o discute com
outros espectadores de qualquer parte do mundo. Rompe-se a barreira do espaço. Um
exemplo dessa “desterritorialização” de ver e de comentar filmes é a rede
social Mubi. O slogan do site explica perfeitamente sua proposta e reflete essa
intenção: “Seu cinema on-line, a qualquer hora, em qualquer lugar. Assista,
descubra, discuta”. “Na rede, a ideia de
comunidade é mudada. Ela potencializa o debate”, sugere Toste. O que só prova
que o cinema, na sua versão de rua, pode até estar agonizando, mas, como
produção artística, dificilmente morrerá.
SAIBA MAIS:
ALMEIDA, Paulo Sérgio e BUTCHER,
Pedro. Cinema, desenvolvimento e mercado. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2003.
FERRAZ, Talitha. A Segunda
Cinelândia Carioca: cinemas, sociabilidade e memória na Tijuca. Rio de Janeiro:
Ed. Multifoco, 2009
GONZAGA, Alice. Palácios e
Poeiras – 100 Anos de Cinema no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Ministério da
Cultura/Funarte/Record, 1996.
Sites:
Blogsobre cinemas antigos de São
Paulo
www.salasdecinemadesp.blogspot.com
Revista de discussão
cinematográfica
www.revistacinetica.com.br

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