O CINEMA NAS DÉCADAS DE 30 A 50 DO SÉCULO XX:
UMA VISÃO HISTÓRICA
Alberto Manuel Vara Branco
Coordenador do Curso de Comunicação Social
O cinema substitui o nosso olhar
por um mundo de acordo com
os nossos desejos
André Bazin
O cinema, que foi criado pelos irmãos Lumière em 1895,
tornou-se sonoro em 1927, depois falado e beneficiado com a cor.
O cinema, que é a arte de compor e realizar filmes para serem
projectados, é símbolo e motor de uma nova mentalidade do lazer, cultivado pelos
anos vinte do século XX, sendo primeiramente um divertimento com analogia ao
circo e dirigido às classes mais desfavorecidas.
Contudo, na década de trinta é o mais importante entretenimento
público, com um número cada vez mais crescente de espectadores, substituindo o
teatro. A partir desta década o cinema tornou-se apetecível para as classes
burguesas, pois era um meio de encontro da sociedade. Era notório na época
fazer-se toilette para se ir ao cinema. Tratava-se de um evento social.
O cinema passou a ser frequentado pela burguesia, uma vez que
para além de influenciar a própria sociedade, ele era também o reflexo dessa
mesma sociedade, fazendo realçar as qualidades da classe burguesa da época.
O sucesso do cinema ficou a dever-se a um conjunto de dados,
como sejam: o diminuto preço dos bilhetes, a multiplicidade de salas e de
secções, e a sua capacidade de evasão, através do sonho e da estimulação do
imaginário.
O cinema tratou temas como o amor e a morte, pois o domínio do
sentimentalismo, do erotismo, da violência e a utilização de títulos
identificadores do espectador como o herói eu sou, foram e são receitas
para o êxito.
O cinema é uma sucessão de fotos fixas, apresentadas por
projecção sobre um grande ecrã, vinte e quatro imagens por segundo. Em termos
técnicos, o cinema sendo um veículo da cultura de massas, com a possibilidade de
atingir um grande número de pessoas ao mesmo tempo, está sujeito a três
elementos essenciais da comunicação: o emissor, o receptor e o meio.
A linguagem é monomórfica, o discurso é contínuo e dá-se mais
realce à figura do realizador. O tempo de atenção é determinado pela intensidade
do tempo dramático na sucessão de imagens.
De acordo com Roman Gubern (1979), o cinema sob o ponto de
vista da Semiológia, pode ser considerado como um sistema de signos (visuais e
acústicos), que se articulam para compor um discurso, embora não se faça
analogia entre o sistema da língua e o discurso cinematográfico, os conceitos de
significante e significado, referentes à linguagem.
Para além do cinema ser produtor de espectáculo, ele é também
veículo de propaganda, de informação e de formação. Esta vertente do cinema
advém da exigência que a evolução sistemática do homem impõe à arte para que se
explique ao próprio ser humano as determinantes dos seus princípios
evolutivos.
O cinema explora o sensacional como forma de evasão, sendo o
espectador coagido a tomar consciência e partido, de forma a não sair da sala em
estado de indiferença.
O cinema tem uma função psicológica, ele é de entre os meios de
expressão humana, o que mais se aproxima do espírito do homem e o que melhor
imita o funcionamento do sonho. A obscuridade da sala e a imagem tornam-se
mecanismos de fascinação, que exploram os movimentos psicológicos e de
memória.
Como meio de fascínio que é, o cinema foi utilizado eficazmente
para a propaganda ideológica sobre as massas. A década de trinta do século XX é
considerada por muitos como a época de apogeu da indústria cinematográfica. No
período anterior à Segunda Grande Guerra o cinema atingiu a sua plenitude. É
nele que surgem os irmãos Marx com as suas brincadeiras, que a Walt Disney
produz os seus primeiros personagens e que surge um grande acontecimento: a
comédia.
No caso particular de Hollywood, encontramos nos anos trinta
filmes de gangsters, como são exemplo Little Ceasar e Public
Enemy. Este último mostra as condições sociais económicas americanas que
produzem os criminosos, ostentando fatos luxuosos e automóveis caros e o
protagonista faz-se acompanhar de mulheres dissolutas e esbanjadoras, antes de
encontrar uma morte violenta.
Tal foi a influência perniciosa deste filme e de outros filmes
de gangsters que levou a serem sujeitos a protestos por parte do público
norte americano, chamando a atenção para a influência prejudicial que exerciam
sobre a juventude norte americana ao ser glorificada a violência e ainda ao ser
salientada a vida que os criminosos levavam.
Outros géneros de filmes obtiveram também êxito, nomeadamente o
caso dos chamados filmes confessionais, nos quais os protagonistas pecavam, mas
no final encontravam a redenção.
Para se combater a falta de público nas salas de cinema, em
resultado da grave crise económica que assolou nessa altura os EUA, o antídoto
encontrado foi a fantasia de escape, com o encanto despreocupado dos
interpretes, como Fred Astair e Ginger Roger, que provocavam a descontracção do
público norte americano de forma a aliviar a tensão de uma realidade difícil,
face à dureza dos tempos.
Não nos esqueçamos que a mensagem de Hollywood, durante os anos
da depressão, era que as virtudes capitalistas, trabalho, optimismo e
patriotismo, eram as soluções indispensáveis para combater a crise.
Mas enquanto Hollywood prosperava, o totalitarismo alastrava
pela Europa, aniquilando as manifestações de liberdade artística e intelectual,
extinguindo assim a cinematografia criativa.
Os regimes totalitários exerciam sobre o cinema uma censura
asfixiante e impunham os seus imperativos, pois aperceberam-se da sua vertente
influenciadora e de inculcação de valores.
Os regimes totalitários encomendavam as obras cinematográficas,
impunham a forma e o conteúdo, nenhuma obra podia ser publicada, senão tivesse a
sua aprovação. Nesta fase, o cinema foi um instrumento de propaganda
valioso.
Perante este quadro que se vivia na Europa, muitos cineastas
fugiram, para não terem que se reprimir e obedecer aos ditames dos regimes, como
é o exemplo de Fritz Lang, que fugiu da Alemanha quando Hitler tomou conta do
poder.
A utilização do cinema como instrumento político foi mesmo
afirmado por Hitler em Mein Kampf , quando escreveu é preciso expulsar
do teatro, das belas artes, da literatura, do cinema, da imprensa, da
publicidade, das montras, as produções de um mundo em putrefacção; é preciso
pôr a produção artística ao serviço do estado e de uma ideia de cultura
moral.
Filmes como O triunfo da vontade, um registo do
congresso do partido nacional socialista em 1934 na cidade de Nurenberg e
Olímpia, película sobre os jogos olímpicos realizados em Berlim em 1936,
são verdadeiros hinos à filosofia hitleriana.
Na União Soviética, também os filmes foram condicionados pelo
domínio de Estaline, que considerava que apenas as fitas simples e realistas
podiam servir de entretenimento ao público. Nesta fase proliferou o
documentário, que fazia a cobertura das acções militares do campo de batalha, já
no final do decénio começaram a ser aceites obras sobre figuras da Rússia.
Em 1941, o grande cineasta soviético Einsenstein realizou por
sugestão de Estaline, Ivan, O Terrível, primeira e segunda parte. Na
primeira glorificava-se um príncipe subjugando os senhores feudais para criar a
Rússia moderna. Na segunda parte, mostrava-se o protagonismo dominado pelo
rancor e amargura, conduzindo-o à loucura. Estaline vai reprovar esta segunda
parte, pois esta não se adequava aos princípios lógicos do comunismo. O filme,
mantido sob proscrição oficial, apenas em 1958, cinco anos após a morte de
Estaline, foi projectado pela primeira vez, o que evidencia o controle e a
subjugação do cinema soviético ao regime comunista.
Na Grã-Bretanha, a luta triunfante para preservar a liberdade
nacional está reflectida nos filmes, mas com a erupção da guerra e devido aos
ataques aéreos inimigos, são encerrados temporariamente os cinemas.
Reabriram posteriormente com filmes e documentários, cujo
enredo prestasse tributo e ajudasse a propagar o orgulho e a capacidade de
resistência nacional, estratégia para que os Ingleses não desfalecessem com o
esforço da guerra.
O documentário de Watt O Alvo desta Noite, onde se
mostra que os Ingleses fazem também ataques aéreos em território alemão e
A Armada em que Servimos de Noel Coward e David Lean, são exemplos
do modo de encorajamento aos habitantes ingleses na sobreviver às tiranias do
inimigo alemão.
Nos EUA, nos anos que antecederam a sua participação na Segunda
Guerra Mundial continuaram-se a produzir filmes de entretenimento, embora em
1940 surgissem filmes como O Correspondente Estrangeiro de Hitchcock e
Confissões de um Espião Nazi, que denunciavam o fascismo, a ameaça nazi e
chamavam a atenção para os perigos de um envolvimento na guerra por parte dos
EUA.
Quando estes já se encontravam em guerra, os alemães e os
japoneses eram apresentados nos filmes como homens monstruosos, ao mesmo tempo
que se glorificavam o combate americano e a solidariedade da América com os
Aliados.
O filme Casablanca, realizado por Michael Curtiz para a
Warner Brothers, com actores conceituados como Humphrey Bogart e Ingrid Bergman,
mostra as dificuldades da guerra, a situação dos refugiados, que tentam obter o
visto para a América e no qual demonstra o favoritismo dos aliados. A comprovar
esta realidade, sublinha-se a cena em que num café, os refugiados franceses ao
cantarem A Marselhesa, abafam os militares alemães que entoavam
com vigor Deutschland über Alles.
Bastos, Baptista – O cinema na polémica do tempo. Lisboa: Gomes
& Rodrigues, Lda, 1959.
Gubern, Roman - Cinema contemporâneo. Rio de Janeiro:
Biblioteca Salvat de Grandes Temas, 1979.
Lebel, Jean Patrick – Cinema e Ideologia. 2ª edição. Lisboa:
Editorial Estampa, 1975.
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